Cuide de seu Idoso

Aqui você aprende a cuidar de seu idoso!

Dicas de Cuidado Notícias

Envelhecimento e encolhimento da população japonesa

Compartilhe com seu amigo!

Apesar de existirem diversas definições sobre a população idosa Japão e no mundo, a OMS (Organização Mundial da Saúde) define a população idosa como aquela a partir dos 60 anos de idade, mas faz uma distinção quanto ao local de residência dos idosos. Este limite é válido para os países em desenvolvimento, subindo para 65 anos de idade quando se trata de países desenvolvidos como Japão.(1) Este conceito também é utilizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) para cálculos e pesquisas de Censo e é também defendido pelo Estatuto do Idoso.(2) Por estes motivos é o que será trabalhado ao longo de toda esta análise.

A história da expectativa de vida japonesa

Em 2016, expectativa de vida dos japoneses foi a maior da história, segundo o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar (MHLW). De acordo com o levantamento, a expectativa de vida dos homens atingiu a média de 80.98 anos enquanto a das mulheres atingiu 87.14 anos. Já em 2015, ano anterior, a média foi de 80.75 e 86.99 anos para homens e mulheres, respectivamente.(3)

Como as pessoas que morrem pelas “três das principais causas de morte” (doença cardíaca, doença cerebrovascular e pneumonia) estão em tendência de queda, o MHLW analisa que “com o avanço das tecnologias médicas e aumento crescente dos hábitos saudáveis, a longevidade pode aumentar ainda mais”. Assim, o Japão ficou em segundo lugar no ranking mundial de longevidade, ficando atrás apenas de Hong Kong.

Mas nem sempre foi assim, em entrevista à BBC Brasil, o professor Shibuya explicou que ”a expectativa de vida do japonês aumentou rapidamente entre os anos 50 e 60, primeiramente, por causa da queda da taxa de mortalidade infantil”. Depois, as autoridades concentraram esforços para combater a mortalidade adulta.(4)

De acordo com Kenji Shibuya, professor do departamento de política global de saúde da Universidade de Tóquio, em seu artigo “What has made the population of Japan healthy”, publicado no jornal Médico The Lancet, as razões da longevidade dos japoneses têm tanto a ver com o acesso a medidas de saúde pública quanto a uma dieta equilibrada, educação, cultura e também atitudes de higiene no dia-a-dia.

Em seus estudos, Shibuya compilou evidências disponíveis sobre a saúde da população no Japão para investigar o que tornou o povo japonês saudável nos últimos 50 anos. Para o pesquisador:

“A população japonesa alcançou a longevidade em um curto espaço de tempo através de uma rápida redução nas taxas de mortalidade por doenças transmissíveis dos anos 1950 ao início da década de 1960, seguida por uma grande redução nas taxas de mortalidade por derrame”.(5)

O Japão pós-guerra ensinou aos países com baixo desenvolvimento socioeconômico que eles podem alcançar progressos em termos de saúde da população. No início dos anos 50, a renda nacional do Japão era baixa, quando um grande aumento na expectativa de vida ao nascer começou. Este aumento deveu-se em parte como resultado da ampliação da cobertura das intervenções para sobrevivência infantil e do fornecimento de tratamento gratuito para a tuberculose.
O sucesso durante este período foi, fruto de uma forte administração do governo japonês que implementou importantes reformas estruturais no setor da saúde, dando prioridade ao investimento em intervenções chave para a saúde pública na fase inicial do crescimento econômico.

 

A Figura 1 representa tendências na esperança de vida ao nascer, 1900–2008. Dados da Universidade da Califórnia em Berkeley e do Instituto Max Planck para Pesquisa Demográfica(6) e Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar.(7)

O Japão teve taxas moderadas de mortalidade por doenças não transmissíveis, com exceção do acidente vascular cerebral, na década de 1950. A melhoria na saúde da população continuou após meados da década de 1960, após a implementação de medidas de saúde pública comunitária preventiva primária e secundária para reduzir a mortalidade de adultos por doenças não transmissíveis e um aumento do uso de tecnologias médicas avançadas através do esquema de seguro universal. A redução das desigualdades na saúde com melhoria da saúde da população foi em parte atribuída à igualdade de oportunidades educacionais e ao acesso financeiro aos cuidados.

Este sucesso no aumento da expectativa de vida japonês deve-se não somente ao bom acesso aos cuidados de saúde, mas também a outros fatores culturais envolvidos. Segundo Marmot e Smith, o modo como os japoneses se relacionam entre si e com grupos poderia explicar em parte a longevidade da população japonesa. Para Marmot e Smith:

“Os laços fortes nas comunidades japonesas parecem estar associados a melhores resultados em saúde mental, saúde bucal e funcionamento físico, enquanto protegem contra os efeitos adversos da desigualdade de renda”.(8)

Ainda, segundo os pesquisadores, “mais de 50 anos de paz e estabilidade política também podem ter contribuído indiretamente para o sucesso do Japão na saúde da população”.(8)

Por fim, como resultado dessa combinação, o Japão é um dos poucos lugares do mundo onde a esperança de vida é superior aos 80 anos para ambos os gêneros (83,7 anos, segundo dados da Organização Mundial da Saúde), inclusive com mais 65 mil cidadãos japoneses centenários:

“O Japão bateu de novo neste ano o número recorde de cidadãos centenários, com um total de 65.692 registrados no censo, o que representa 4.124 ou 6,7% a mais que em setembro de 2015… deles, 87,6% são mulheres”.(9)

A Figura 2 representa a população idosa centenária do Japão.

Fonte: The Japan Times. Governo do Japão e Banco Mundial. Exame, Mundo. O envelhecimento do Japão em dados e gráficos (2016) apud(10)

 

Com o sucesso durante a transição da saúde desde a Segunda Guerra Mundial, o Japão agora enfrenta agora um de seus maiores desafios de uma população que envelhece rapidamente.

Aumento da expectativa de vida e encolhimento da população

O rápido processo de envelhecimento da população mundial está aumentando drasticamente e mudando a cara do mundo. Segundo o Centro para o Desenvolvimento da Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS), no Japão, também conhecido como “Centro de Kobe da OMS”, em 2050 espera-se que o número de pessoas com 60 anos ou mais, no mundo, chegue a 2 bilhões:

“Pessoas em todo o mundo estão vivendo vidas mais longas e saudáveis. Hoje, a maioria das pessoas pode esperar viver em seus sessenta anos e além. Até 2050, a população mundial com 60 anos ou mais deverá atingir 2 bilhões, acima dos 900 milhões em 2015”.(11)

O ano de 2016 foi um divisor de águas para o Japão. O número de pessoas com mais de 65 anos, no Japão, bateu o recorde em 34,6 milhões de idosos, segundo Ministério do Interior, o que corresponde a 27,3% dos japoneses.(10)

A Figura 3 representa a evolução da população idoso no Japão.

Fonte: Fonte: The Japan Times. Governo do Japão e Banco Mundial. Exame, Mundo. O envelhecimento do Japão em dados e gráficos (2016) apud(10)

É neste ano também que se revela o primeiro registro histórico do encolhimento da população:

“A população do Japão diminuiu em quase um milhão de pessoas, o que representa 0,7% do total, nos últimos cinco anos, mostrou o censo de 2015 do país, que pela primeira vez registra uma queda desde que a análise começou a ser elaborada, em 1920”.(12)

Segundo governo japonês, a população do Japão em 2015 era de 127,11 milhões de pessoas, cerca de 947 mil a menos em comparação com o censo de 2010. .(12) Assim, a partir do senso de 2010, a população japonesa tinha parado de crescer, o primeiro declínio populacional registado desde 1920. A expectativa é que esse número se reduza ainda mais nos próximos anos: 83 milhões até 2100.

A Figura 4 representa a população idosa centenária do Japão.(10)

Este inédito envelhecimento e atual encolhimento da população japonesa decorrem de seu aumento da expectativa de vida, redução nas taxas de natalidade e mortalidade. De acordo com o Ministério da Saúde, 2016 foi o ano em que, pela primeira vez desde 1899, o número de recém-nascidos no Japão em ficou abaixo de um milhão. De acordo com o governo japonês, na década de 1970, o número de novos nascidos ultrapassou dois milhões por ano. Já a partir de 1984, caiu para 1,5 milhão e em 2005, este número chegou a 1,1 milhão.

Figura 5 representa o número de recém-nascidos durante à partir da década de 70.

Fonte: adaptação do autor.

Dentre as causas desta redução das taxas de natalidade, está também o aumento de japonesas entre 20 e 30 anos que dedicadas à profissão, decidem não ter filhos.(13)

Em 2015, o número de mortos superou o de nascimentos, resultando em uma redução da população:

“Uma avaliação recente das taxas mundiais de mortalidade de adultos identificou três fatores importantes – desenvolvimento socioeconômico, maior acesso aos cuidados de saúde e o progresso nas tecnologias de saúde e as doenças da riqueza”.(14)

Vários esforços do governo para elevar a taxa de natalidade tiveram pouco sucesso. As últimas previsões não foram uma boa notícia para o governo do primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, que prometeu a aumentar a taxa durante o seu mandato, também sem sucesso.

Homogeneidade, previdência e o declínio da economia japonesa

Como vimos, o Japão que cresceu rapidamente após a Segunda Guerra Mundial, era quase completamente homogêneo em demografia, língua, etnia e cultura, o que permitiu uma maior quantidade de confiança e unidade entre a população, o que é diferente entre sociedades democráticas com lutas. Aliado ao trabalho duro dos japoneses, a economia japonesa foi um sucesso após este período.

A natureza homogênea e igualitária da sociedade japonesa é mostrada em termos de fortes políticas educacionais, regulamentações formais e informais que garantem a segurança no emprego e o acesso universal aos cuidados de saúde.(15)

Esta mesma homogeneidade que tanto foi benéfica, está prejudicando a economia japonesa, à medida que a população diminui, assim como a economia. A receita é simples, assim como população envelhece mais rapidamente, o declínio aumenta à medida que o número de trabalhadores produtivos diminui.

O Japão já tem uma taxa de desemprego muito baixa, mas como vimos, também uma das taxas de fertilidade mais baixas do mundo. A imigração em massa parece que enfrenta barreiras, uma vez que a maioria dos japoneses prefere a homogeneidade.

Infelizmente, a morte lenta é o inevitável destino do Japão, se a população continua em declínio. Para termos uma ideia, em 2016, houve 300.000 mortes a mais do que nascimentos. Se o Japão continuar no curso atual, terá perdido quatro de cada dez trabalhadores.

Economicamente, a consequência mais séria da diminuição das taxas de natalidade para o Japão é a redução do número de pessoas que suporta o fardo dos gastos com a previdência social. A partir da segunda metade dos anos 90 o governo japonês vem implementando reformas estruturais no sistema de previdência social (16). Dentre as prioridades de temas, estão: o aumento nos gastos com benefícios de previdência social, a estagnação da economia japonesa, a piora da situação fiscal do governo, e a necessidade de diversificação do programa de previdência social.

Dentre as medidas para melhorar a viabilidade financeira do sistema previdenciário público, em março de 2000, o governo aprovou um pacote de propostas de reformas previdenciárias para reduzir os níveis dos benefícios evitando aumentar os níveis de contribuição da população economicamente ativa.

“A partir de abril de 2000, a aposentadoria do trabalho para novos beneficiários sofreu um corte de 5% e o sistema de redução gradual dos pagamentos foi suspenso, incluindo reajustes baseados somente nas mudanças de preços ao consumidor”. (16)

Até a idade inicial para receber os benefícios está sendo aumentada de 60 para 65 anos de idade. A idade para recebimento de aposentadorias passará a ser 61 anos em 2013 para os homens e em 2018 para as mulheres, com subsequentes aumentos de um ano de idade a cada período de três anos.

Figura 5 representa a evolução da idade inicial para aposentadoria no japão.

Fonte: adaptação do autor.

O Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar Social publicou um balanço com estimativas de receitas e gastos com a previdência até o ano de 2100, indicando que haverá um grande déficit nas receitas. Assim, se a taxa de natalidade do Japão continuar a diminuir, o governo terá grandes dificuldades para manter os níveis de benefícios previdenciários.(16)

O desafio agora é manter as pessoas saudáveis e produtivas agora que vivem mais tempo. Para Sociedade Gerontológica do Japão e a Sociedade de Geriatria do Japão as pessoas da faixa etária de 65 a 74 anos deveriam ser consideradas “pré-idosas”. A palavra “idoso” caberia melhor para alguém na faixa etária de 75 a 89 anos e a definição especial de “superidoso” poderia ser adotada para pessoas com 90 anos ou mais, afirmaram.(17)

Sobre o autor:

Márcio Silva é Diretor de Marketing e Negócios da Live Sênior, atualmente cursa Pós-Graduação em Gerontologia do Hospital Israelita Albert Einstein em São Paulo capital.

 

Referencia Bibliográfica:

  1. Otero, Ubirani Barros. Estudo da Mortalidade por Desnutrição em Idosos na Região Sudeste do Brasil, 1980-1997 [dissertação]. [Rio de Janeiro]: Fundação Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública; 2001. 113 f.
  1. Estatuto do idoso: lei federal nº 10.741, de 01 de outubro de 2003. Brasília, DF: Diário Oficial da União; 2003 [citado 2018 Abr 1]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.741.htm
  1. Ministry of Health, Labour and Welfare. Tóquio: MHLW; 2016 [cited 2018 mar 31]. Available from: http://www.mhlw.go.jp/english/database/db-hw/index.html
  1. Ewerthon Tobace. Pesquisa revela segredo da longevidade no Japão. Tóquio: BBC Brasil; 2012 [citado em 2018 Mar 28]. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2012/06/120618_japao_longevidade_bg
  1. Shibuya, Kenji. Japan: Universal Health Care at 50 Years 1: What has made the population of Japan healthy. Lancet 2011; 378:1094. Review.
  1. Universidade da Califórnia em Berkeley, Instituto Max Planck de Pesquisa Demográfica. Banco de dados de mortalidade humana. [cited 2018 Abr 1]. Available from: http://www.humanmortality.de
  1. Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar. ( (em japonês). ) As 20as tábuas da vida. Associação de Estatística de Saúde e Bem-Estar, Tóquio; 2007
  1. Marmot, MG and Smith, GD (1989). Why are the Japanese living longer? 1989; 299 : 1547-1551.
  1. Veja Online. Japão tem mais de 65 mil pessoas com mais de 100 anos. São Paulo: Veja, Mundo; 2016 [citado 2018 Abr 1]. Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/japao-tem-mais-de-65-mil-pessoas-com-mais-de-100-anos/
  1. Ruic, Gabriela. O envelhecimento do Japão em dados e gráficos. Tóquio: Exame, Mundo; 2016 [citado 2018 Abr 1]. Disponível em: https://exame.abril.com.br/mundo/o-envelhecimento-do-japao-em-dados-e-graficos/
  1. World Health Organization (WHO). WKC Launched New Research Initiative for UHC and Ageing Populations – Lessons learned from Japan to the World. Kobe: WHO; 2017 [cited 2018 Abr 1]. Available from: http://www.who.int/kobe_centre/mediacentre/Implementation_research2018/en/
  1. com. Censo do Japão registra pela primeira vez queda na população. São Paulo: Veja, Mundo; 2016 [citado 2018 Mar 29]. Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/censo-do-japao-registra-pela-primeira-vez-queda-na-populacao/
  1. Jornal do Brasil. Taxa de natalidade no Japão é a menor desde 1899. Rio de Janeiro: Agência ANSA; 2016 [citado 2018 Mar 28]. Disponível em: http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2016/12/22/taxa-de-natalidade-no-japao-e-a-menor-desde-1899/
  1. Rajaratnam, JK, Marcus, Jr., Levin-Reitor, A et al. Mortalidade mundial em homens e mulheres de 15 a 59 anos, de 1970 a 2010: uma análise sistemática. Lancet. 2010 ; 375: 1704–1720
  1. Shibuya, Kenji. Japan: Universal Health Care at 50 Years 1: What has made the population of Japan healthy. Lancet 2011; 378:1099. Review.
  1. Embaixada do Japão no Brasil. O Envelhecimento da Sociedade e Seu Impacto na Previdência Social. Brasília; 2016 [citado 2018 Mar 27]. Disponível em: http://www.br.emb-japan.go.jp/cultura/previdencia.html
  1. Nohara, Yoshiaki. Japão precisa redefinir problema de envelhecimento. Tóquio: Uol Notícias; 2017 [citado 2018 Mar 28]. Disponível em: https://economia.uol.com.br/noticias/bloomberg/2017/02/17/japao-precisa-redefinir-problema-de-envelhecimento.htm
  1. The Economist. A small Japanese city shrinks with dignity. Toyama; 2018 [cited 2018 Mar 22]. Available from: https://www.economist.com/news/asia/21734405-authorities-are-focusing-keeping-centre-alive-small-japanese-city-shrinks-dignity
  1. Grahame, Alice. Improving with age? How city design is adapting to older populations. The Gardian. Londres; 2016 [cited Mar 22]. Available from: https://www.theguardian.com/cities/2016/apr/25/improving-with-age-how-city-design-is-adapting-to-older-populations

Compartilhe com seu amigo!

1 COMMENTS

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Diretor de Marketing da Live Sênior, atualmente cursa Pós-Graduação em Gerontologia do Hospital Israelita Albert Einstein em São Paulo capital.